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Publicada: 06/10/2015

Porto cubano financiado pelo BNDES vai beneficiar concorrentes do Brasil

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Proclamado pelo ex-presidente Lula da Silva como um “orgulho” da sua gestão, o Porto cubano de Mariel foi financiado pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). O Instituto Lula chegou a emitir comunicado defendendo o investimento para “ampliar mercados para o Brasil e para as empresas brasileiras”. 

Esta semana a Revista ÉPOCA publicou reportagem ouvindo especialistas sobre a questão: afinal, financiar um porto em Cuba foi um bom negócio? A opinião geral é que o porto é de utilidade duvidosa para incrementar nossas exportações. Segundo os especialistas, o Porto de Mariel vai beneficiar principalmente os norte-americanos, que competem com o Brasil no mercado de commodities.

“O Brasil não precisa dessa porta de entrada para chegar aos americanos”, atesta Lia Valls, professora do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas. Na avaliação do consultor de mercado Carlos Cogo, o Brasil vai perder competitividade no arroz, que possui alto consumo pelos cubanos, e que agora terão mais facilidade de trazer a produção do estado da Louisiana (EUA). 

“E vamos perder espaço também na soja e no frango, um por um. O Brasil passa dificuldade e ainda fez obras de infraestrutura para beneficiar nosso principal concorrente comercial em Cuba. Fico chocado com isso”, diz Cogo.

Quando, por decisão da Justiça, caiu o sigilo nas operações do BNDES, comprovou-se que os desembolsos a Cuba para obras no Porto de Mariel tiveram condições mais vantajosas do que os financiamentos a outros países. A ilha terá 25 anos para devolver o dinheiro, o dobro da média, a taxas menores do que em outros negócios. O banco afirma que o financiamento “está em linha com as características do projeto” e que a concessão foi baseada em critérios técnicos. Marcos Lisboa, Pedro Makhoul e Sérgio Lazzarini, do Insper, calculam que os empréstimos a Cuba nos projetos tocados pela Odebrecht custem US$ 49 milhões por ano ao país. É quanto o Brasil perde por emprestar a taxas camaradas, em média de 5,2% ao ano em 25 anos, ou 6,59 pontos percentuais abaixo da taxa que o Tesouro capta no mercado, no mesmo prazo. “Não há justificativa para financiar esse porto com subsídios pagos pelos brasileiros. Os prazos são longos demais. O BNDES diz que tivemos ganho em dólar, mas foi exclusivamente porque o dólar se valorizou – e não é papel do BNDES ganhar com operação cambial. O banco também alega que temos de ter taxas competitivas no mercado externo. Mas por que essa competição, se ela tem um custo alto para os brasileiros?”, diz Sérgio Lazzarini.

Em termos. O porto pode ter gerado empregos durante sua construção, entre 2010 e o início de janeiro, quando foi inaugurado. A condição para o BNDES conceder o empréstimo foi que a Odebrecht contratasse máquinas e equipamentos no Brasil. Desde a inauguração, porém, não houve incremento nas vendas do país a Cuba, de acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento. As exportações a Cuba em 2014 foram de US$ 507 milhões, menos do que nos três anos anteriores. Neste ano, caíram 17%, mesmo patamar de todas as exportações brasileiras. Compõem quase metade dessa pauta os embarques de frango, arroz e bagaço de soja. A minúscula economia cubana pesa irrisório 0,23% no comércio brasileiro. Como não há expectativa de que o Brasil vá exportar mais por causa do porto – a tendência, ao contrário, é que, com o fim do embargo, os Estados Unidos avancem sobre alguns mercados brasileiros –, não há perspectiva de geração de mais empregos no setor do agronegócio.

É incerto. O financiamento faz sentido na trajetória diplomática e econômica do Brasil na América Latina. Também é coerente com o comportamento do governo brasileiro em relação a Cuba, ao longo da história do embargo americano. Ajudar o governo cubano com uma obra que melhorará sua logística pode, ou não, dar ao Brasil pontos no futuro quando forem escolhidos parceiros comerciais. O porto trará ganhos importantes para Cuba, ao posicionar melhor o país diante do esperado crescimento do fluxo comercial na região – tanto pela abertura comercial quanto pela ampliação do Canal do Panamá. Mas não há nenhuma garantia da “gratidão” de Cuba. O governo lá pode mudar, assim como o daqui, o que afetaria qualquer expectativa gerada a partir da amizade entre ambos.

“É importante ter laços com Cuba, mas podíamos ter definido melhor futuras vantagens conectadas com o empréstimo. Teria sido interessante se fosse pleiteada a preferência para contratos futuros, por exemplo, mas não temos informações claras em relação à costura feita”, afirma Leonardo Paz, do Centro Brasileiro de Relações Internacionais.

(Fonte: Agrolink e Revista Época)