Publicada: 22/09/2014
segunda-feira, 22 de setembro de 2014
O manejo adequado da água é tema preocupante, em especial quando diz respeito à produção de alimentos. No Centro-Oeste, a disponibilidade hídrica cai consideravelmente no período de julho a setembro e pode significar uma ameaça para a agricultura irrigada. Essas lavouras, em sua maior parte, são abastecidas por sistemas de pivôs e abrangem área superior a 250 mil hectares em Goiás.
Uma produção que injeta nada menos que R$ 4 bilhões na economia estadual e estaria correndo risco de desabastecimento, não fossem os investimentos em reservatórios de água.
Um estudo realizado pelo Instituto Mauro Borges (IMB) da Secretaria de Estado de Gestão e Planejamento (Segplan) mostra que um número considerável de 78% desses pivôs instalados em Goiás e no Distrito Federal estaria correndo risco de enfrentar dificuldades quanto à quantidade de água disponível para o perfeito manejo das culturas. Segundo produtores, a afirmação não se confirma.
De acordo com o estudo, entre o porcentual de pivôs que se encontram em situação de risco, 41% estão com uso superior a 95% da vazão do manancial em determinado período, o que os coloca em situação extremamente crítica. Outros 5% já apresentam comprometimento acima de 50% da vazão do manancial, que já é considerado como moderadamente crítico pela Secretaria do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos de Goiás (Semarh). Outros 23% encontram-se com demanda acima da vazão outorgável, o que também é altamente crítico.
O estudo, realizado este ano, avaliou, por meio de imagens de satélite, o cenário da irrigação no ano de 2013. O cálculo da demanda foi feito a partir de uma área mapeada e seguiu a metodologia estabelecida por essa secretaria. A amostra compreendeu 225.557 hectares. Essas lavouras são irrigadas por 2.897 equipamentos em Goiás e 213 no Distrito Federal. Foram utilizados dados de disponibilidade de 115 estações pluviométricas situadas em Goiás e em Estados vizinhos.
O cálculo da demanda teve como referência culturas de soja, milho e feijão e focou a análise da oferta e demanda de água nas áreas irrigadas por pivôs centrais, com o intuito de possibilitar um direcionamento das políticas públicas no que tange à gestão hídrica.
O uso da água pela agricultura foi escolhido como ponto de partida dessa pesquisa por ser o segmento que mais utiliza este recurso. O estudo foi direcionado aos sistemas de pivôs centrais, dada a maior facilidade de mapeamento dos equipamentos e também por estes demandarem quantidades consideráveis de água em regiões específicas do Estado.
Conforme um dos responsáveis pelo estudo, o pesquisador em geoprocessamento do IMB Lindolfo Caetano Pereira Júnior, ficou claro na pesquisa que nos dez municípios onde foram mapeadas mais áreas críticas, a economia local é dependente da agropecuária e, em grande parte deles, a agricultura irrigada é bem dimensionada. “Nessas regiões, uma interferência nesse setor afetaria diretamente a economia, uma vez que a agropecuária é uma das principais atividades econômicas do Estado.”
Para Caetano, na situação de comprometimento hídrico goiana há outros fatores, além dos climáticos, que implicam na possibilidade de falta de água para a agricultura irrigada. “Esses fatores estão diretamente ligados ao consumo de forma não eficiente, à falta de preservação ambiental, a questões de impermeabilização, à poluição, dentre outros”, pontua o especialista. Segundo ele, nota-se que, de modo geral, diversos segmentos que fazem uso intensivo da água não adotam medidas de preservação deste recurso.
O especialista alerta que ainda restam alternativas para debelar problemas causados pelo uso incorreto da água e que devem ser debatidas com o envolvimento de toda a sociedade. “O modelo de gestão compartilhada adotado pelo Brasil tem como objetivo envolver todos os grupos de usuários na discussão das medidas de controle e gestão. Assim, os próprios interessados têm voz no momento das tomadas de decisão.
Cálculos superficiais
“Esse catastrofismo que se prega não se confirma. Não existem áreas críticas”, rebate o superintendente de Irrigação da Secretaria de Estado da Agricultura, Pecuária e Irrigação de Goiás (Seagro), Alécio Maróstica. O único período em que houve falta de água para a irrigação aconteceu em 1988 no Vale do Pamplona, na divisa entre Luziânia e Pontalina, informa. Foi nesse período que o produtor irrigante despertou para a necessidade de reservas de água e começou o sistema de armazenamento. “Hoje eles quase sextuplicaram a irrigação e não falta mais água.”
Segundo Maróstica, a capacidade de água em Goiás é suficiente para irrigar no mínimo 5 milhões de hectares. “Tem água, solo, clima e tudo. Por ano, só a diferença entre ganho de produtividade corresponderia a R$ 12 bilhões que são perdidos diretamente, lá na lavoura, sem considerar os aspectos econômicos indiretos como a agregação de valor”, defende.
O superintendente da Seagro enfatiza que no próprio estudo do IMB a análise de imagens orbitais revela que parte dos equipamentos de irrigação está localizada próxima a barramentos. Em função da falta de estudos de modelagem destas barragens, não é possível determinar a real capacidade de suporte de cada uma delas. “Não se consegue medir a quantidade disponível no local. Dessa forma, desconsiderando a água dos reservatórios, a situação seria realmente crítica”, afirma.
Embora a pesquisa aponte riscos à agricultura irrigada, no que diz respeito à quantidade de água disponível nas bacias hídricas em Goiás, não consegue mostrar a realidade como um todo, explica Maróstica. “Entre o que é levantado por aerofotogrametria (sistema de levantamento usado pelo estudo do IMB) e o que acontece no campo há uma grande diferença”, diz ele.
Uma dessas diferenças, apontada pelo superintendente, está relacionada ao uso da água. Ele frisa que o produtor irrigante não precisa usar a água nos limites do que é outorgado. A utilização ocorre na medida em que a cultura necessita de um volume inferior ao que ele é autorizado a usar.
Essa afirmação, assim como a real demanda de água, segundo Maróstica, está sendo comprovada em um Cadastro Positivo do Irrigante, um levantamento feito pela Secretaria de Estado da Agricultura de Goiás (Seagro).
(FONTE: Revista Safra )